Sexta-feira, 9 de Maio de 2014
Au bonheur des dames 359

 

 

 Sentado à beira da rua*

 

Estou sentada na esplanada da Benard, numa mesa miraculosamente deixada livre no exacto momento em que, descoroçoado,  sopesava a hipótese de ir beber o meu primeiro café no interior da pastelaria.

De facto o Chiado, mais propriamente o quarteirão compreendido entre a extinta livraria Sá da Costa e o largo de Camões, estava atulhado de gente que ficara de se encontrar por ali à saída do metro ou numa das esplanadas. Grupos inteiros de pessoas, quase todas da minha provecta idade, com cravos ao peito cruzavam-se, encontravam-se, acotovelavam-se, abraçavam-se, às vezes visivelmente comovidos por ainda estarem vivos, por ser 25 de Abril, por se reencontraram depois de tanto tempo, enfim  por um momento felizes e risonhos. O 25 de Abril é isto.

Antes do milagre da mesa vazia e da rapidez estonteante com que me atirei para ela com risco não da vida mas das cansadas canelas que só não embateram numa cadeira por mero acaso, tinha estado na feira dos alfarrabistas, ali a dois passos, na rua Anchieta . “todos os caminhos vão dar à feira”, disse glosando a frase que convocava a malta festiva para o largo do Carmo. “Todos!...” responderam vários dos livreiros que se entreajudavam na montagem das mesas e na colocação dos livros. A feira ia durar seis dias seguidos e os meus amigos vendedores apostavam nos caudais humanos que iam enchendo o largo do Rato e que depois dos discursos provavelmente desembocariam ali. Alguns, enchiam as mesas de livros sobre a efeméride, em pilhas compactas que denunciavam quarenta anos depois o entusiasmo editorial daqueles tempos festivos e alvissareiros. Outros, mais prudentes, entremeavam a avalanche abrilista com os habituais livros que costumam vender. “Amanhã será melhor...”, confidenciou-me um que conhece as minhas manias livreiras. Encomendei-lhe logo um par de títulos para o caso de ele os ter. Prometeu pesquisar a lista que lhe forneci. Na mesa ao lado, encomendei várias separatas do antigo “agrupamento de história da cartografia antiga”, extraordinária coleção de quase 250 títulos de boa e sólida investigação instigada por Luís Albuquerque (amigo do meu pai e depois meu amigo também, encontrado vezes sem conta nas mesas da “Brasileira” coimbrã, sempre amável e pronto a esclarecer dúvidas) e Teixeira da Mota, um sábio lisboeta perito em história da África Ocidental e autor estimabilíssimo.

Esta coleção pode medir-se sem rubor com qualquer outra empreitada estrangeira do mesmo teor e atrevo-me a afirmar que se não é a melhor é seguramente uma das melhores alguma vez publicadas.

Só um povo zombo, desconfiado, atropelado pelas convulsões do presente é que pode desconhecer este esforço estudioso e científico. Somos assim: ignorantes e contentes por o ser. Não admira que da gigantesca bibliografia sobre a “Expansão portuguesa” a grande maioria dos títulos saia para as grandes bibliotecas estrangeiras enquanto por cá andamos embasbacados com uma série de “Mirós” de segunda ou terceira categoria. O 25 de Abril também é isto.

Na mesa da Benard (escolho sempre esta esplanada para ficar o mais longe possível dos músicos de rua que maltratam a arte de Euterpe (tomem lá!...) com requintes de malvadez e de decibéis. Isto para não falar das multidões de turistas que tentam tirar uma fotografia com o Pessoa. Se cada uma destas criaturas comprassem um só livro do poeta que negociata se faria...) vejo uma jovém e bonita mãe com ar desolado de bebé ao colo e mais dois pequenitos pela mão. Está visivelmente cansada, desespera por uma cadeira, eventualmente por um café e por aquietar os dois pequenos terroristas que exigem um bolo. Cavalheirescamente, e com uma imensa saudade dos meus tempos de galã, ofereço-lhe poiso que ela aceita apressadamente. O bebé, logo que se apanha junto à mesa tenta amarfanhar um guardanapo, roubar-me a caneta com que assento algumas impressões destinadas a este texto, virar um copo de água e molhar um dedo no café. Aquilo não é uma criança é um polvo cheio de truques. Os dois maiores já estão a aviar bolos e a misturá-los com um sumo execrável. A jovem mãe, diz que um dos miúdos é de uma amiga que foi num instante ao Carmo para ver como aquilo estava. “Deixou-me este – confidencia-me – porque tinha medo que ele invadisse sozinho o quartel ou fosse puxar pelas patilhas do Vasco Lourenço. Depois, vamos à praia para aproveitar o dia que amanhã trabalha-se”.  Também isto é o 25 de Abril, mesmo se o marido dela estivesse a trabalhar. “com a falta de empregos não se pode dar uma folga mesmo num feriado”, rematou. “Não, claro, não se pode...”, despedi-me.

Sair para Oeiras,  pela marginal num dia daqueles é aventura que não aconselho a ninguém.. A polícia montara um dispositivo tal que só para lá do Principe Real  havia hipótese de descer para a beira rio. Estou habituado a circular em Lisboa mas uma infeliz série de enganos, de polícias a desviar o trânsito e sinais de sentido único  deixaram-me perdido em ruas desconhecidas. Muito a custo voltei ao largo de Camões e zás, ala que se faz tarde, rumo ao rio. Entretanto ia começar uma marcha sobre a antiga sede da pide e a polícia corria com o transito dali para fora. Confesso que, depois dos tempos passados no quarto andar daquela instituição, numa salinha desconfortável de pé e sem dormir durante uns largos dias, deixei pura e simplesmente de frequentar o local. Sei que há por aí uns amadores da “memória” que entendem preservar todos os sítios ligados à repressão do Estado Novo. Por mim, bastam Caxias e Peniche. A inóspita sede da pide não tinha nada de especial, tudo aquilo era inexpressivo, as salas onde se praticavam a “estátua” e o “sono” não tinham nada de invulgar: quatro muros alguma janela, uma porta, uma cadeira para o agente e uma mesa igual a outras. O resto eram as noites e dias sempre iguais com o preso de pé, insone, e de quando em quando um chefe de brigada a trazer uma pergunta. No meu caso, e só desse posso falar, não ocorreu nenhum espancamento, os polícias acreditavam mais na duração da privação de sono e nas dores, essas sim violentas, por se estar sempre de pé. E no isolamento, na angústia de não se saber nada, de desconhecer a acusação, de não se poder comunicar com a família, de se ignorar o que a polícia sabia, o que outros poderiam ter confessado sobre nós. Foi isto que o 25 de Abril acabou. E não é pouco...

Meia hora de para, arranca, “tanto carro!...” diria o tio Quim, também ele veterano, por breves semanas, de Caxias, agora perdido numa outra prisão chamada Alzheimer, “tanto carro”, e é verdade, em quarenta anos passámos do oito ao oitenta, o que pr’aí vai de carros! Mas também isto é o 25 de Abril...

Do Cais do Sodré até à marginal o percurso é feio. Por junto salva-se a zona de Belém (torre e jardins onde se fez a grande exposição dos centenários. Estava cheia de gente ao sol, a passear, crianças por todo o lado, alheias ao milagre dos Jerónimos, ao belo Jardim Tropical (estaria aberto?) e ao Museu da Marinha. E à mastaba que é o Centro Cultural de Belém que custou uma pipa de massa e agora é o sarcófago (ai que egípcio estou!) da coleção Berardo, exemplo acabado do novo-riquismo cultural para admiração de basbaques e de muita gentinha muito post-moderna.

Depois são paredes e paredes de grafittis horrendos. Se isto é liberdade vou ali e já volto. Mas também isto é o 25 Abril. Apesar de tudo, os muros imaculados de outrora não me fazem saudades. Aquele branco era medo puro, respeitinho,  e olhos vigilantes.

E a marginal enfim. Um alegre grupo de ciclistas de várias idades e tamanhos vai preguiçosamente pela faixa da direita. No volante de uma das bicicletas um cesto com um cachorro de focinho ao vento. À frente do grupo um pequerrucho numa bicicleta maior do que ele ornada de uma bandeira multicolorida. Pedala orgulhoso sabendo-se comandante do pelotão. Ora aqui está o 25 de Abril que me agrada. Pessoas que impõem sem violência a sua passada lenta aos automobilistas com nervoso miudinho no acelerador. Esta paisagem, esta estrada é para degustar, para passear, para respirar a maresia que já se sente.

As primeiras nesgas de praia surgem cheias de gente a apanhar o generoso sol de abril. O mesmo sol que testemunhou a marcha das colunas militares, a surpresa dos primeiros espectadores, o entusiasmo, a esperança ainda comedida e os primeiros borbotões da emoção.  Oh que belo dia!

Entretanto Caxias ficou para traz.  Não passo aqui sem recordar os dias, os longos dias, em que de uma janelinha do Reduto Norte via um pouco de rio, outro tanto de autoestrada, os carros e um que outro barco. Aprendi muito da minha actual paciência nessa cela (que a polícia chamava quarto). E a ler os jornais. Minuciosamente. De ponta a ponta, incluindo anúncios, farmácias de serviço e o movimento marítimo. Tentava pôr os nomes que lia nos navios que avistava. E as marés. Fiquei, nessa altura a saber, que consoante a maré os barcos viram.  A polícia permitia ou o “Século” ou o “Diário de Notícias” mas nunca os dois, o que também não era necessário. As notícias eram as mesmas e os artigos de opinião, raros e conformes ao espírito do tempo, também dificilmente se distinguiam. Era assim o 24 de Abril.

Atalho para Oeiras para a casa materna.  O estacionamento hoje é fácil mesmo que o centro comercial esteja mais ou menos cheio. É um pequeno centro, com um supermercado como loja âncora. Há bicha em todas as caixas que muita gente aproveita a manhã para fazer as compras da semana. Também isto é o 25 de Abril. Usar o tempo livre do feriado para fazer o que não se pode noutros dias.

No centro há novidades. A pastelaria que tinha fechado, está de novo aberta com outro nome e decoração.  O pequeno café de um antigo empregado, continua a funcionar e sou informado que tudo lhe corre bem. É bom saber isto, que uma vítima do fecho da pastelaria conseguiu dar uma volta à crise. “E vou ter uma ajudante”, revela-me orgulhoso. “Que não seja a recibo verde” reponto. Ele ri-se. “Vamos lá a ver...Nunca se sabe”.

No lugar da livraria abriu uma loja com o apelativo e gasto nome de “Elite”. Boa sorte.  E mais adiante, alguém abriu um pequeno estanco “gourmet”. Azeite, vinhos, biscoitos, chás e cafés.  Compro umas embalagens de chá branco (em saquetas, ainda não têm de folha mas prometem que para a próxima...) e uns biscoitos que prometem. Não sabem como os de antigamente mas estes novos tempos apressados já não são para essas especialidades. A democratização do biscoito não os tornou baratos mas também não os melhorou. Com ou sem 25 de Abril este era o destino fatal dos biscoitos de azeite. Homogeneizados, menos sápidos e menos duros. Ainda bem que os meus dentes já não são o que eram. Demasiados abris...

Passam duas raparigas sumariamente vestidas. Lembro-me do meu Pai, olho sempre atento, no barco que nos levava a Moçambique: Aquilo ia cheio de moçoilas em flor que ele chamava “as tenras”. Quarentão sedutor, desculpava-se, não fosse a minha Mãe enxofrar-se “A boi velho erva tenra!”

O mesmo dizia o Rui Feijó, que há quarenta exactos anos me acompanhou numa aventura abrilista e conspirativa que já por aqui contei. Durante todos os anos posteriores que viveu, telefonava-me comemorativo, evocando a nossa modestíssima colaboração revolucionária: “Ao fim e ao cabo, valeu a pena, não achas?” –“Claro que valeu, Rui, querido e desaparecido amigo, claro que valeu...” E valeram sobretudo aquelas dezenas de anos de amizade, discussão, de longa rememoração dos anos luminosos e difíceis do primeiro neo-realismo, do MUD, da longa resistência, da solidariedade e da generosidade com que acolhia fugidos na sua quinta da Senhora Aparecida, coisas que ele contava desenfadadamente, modestamente, como se o permanente risco que corria fosse de somenos. Agora já não telefona, mesmo que ao cair da tardinha, sem querer, sem me lembrar, eu espere a sua voz doce e cansada e a sua pergunta mais retórica que essencial, começo sempre de uma longa conversa que agora me faz tanta falta.

E é este o momento mais importante do dia 25 de Abril. A recordação do Rui, do Luís Albuquerque, do tio Marcos, do Joaquim Namorado, do Jorge Delgado e de tantos outros amigos mais velhos que me ensinaram quase tudo e a cuja memória tento ser fiel. De certo modo, pela sua encarniçada resistência, pela sua partilhada esperança, pelo seu sacrifício, pela dignidade com que viveram, pela generosidade com que me aturaram, são eles de facto, o verdadeiro espírito do 25 de Abril. 

A noite chega, depois dela a madrugada e temos a certeza de que ninguém virá por nós, bater-nos à porta, à hora do leiteiro, para nos levar para parte incerta. E isso é também, e principalmente, o 25 de Abril.

 



publicado por d'oliveira às 11:38
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